Sinceramente eu tinha planejado algo sobre castelos e seus respectivos moradores, ou então revelaria alguns manuscritos do meu livro, porém resolvi unir o (in)útil ao agradável e então escreverei sobre um dos dias mais poéticos de toda a minha vida. Tranqüilize-se, ainda não transformei o Hello, Mar em um diário.
Sempre me considerei uma eterna Peter Pan versão feminina. Enquanto todos não viam a hora de crescer e ter eu primeiro namoradinho eu simplesmente não queria largar os meus colegas, os hematomas, em algum lugar renegado na minha memória. Machucados era sinônimo de brincadeiras, brincadeiras era sinônimo de diversão. E, como toda criança que não suporta ficar trinta segundos estática em uma poltrona, eu achava que a maioria dos adultos era alguma espécie de robôs controladores disfarçados em roupas da moda, sempre arranjando tempo para simplesmente perdê-lo em pilhas de trabalhos e desejando coisas que nunca se davam ao luxo de correr atrás.
Portanto, na minha equação mental:
Macela + Crescer = Tédio e Marcela + Conservação = Diversão.
Claro que atualmente tenho uma visão bem diferente da que tinha há dez anos, mas o medo continua inalterado: amadurecer de todo e jamais me recordar novamente de como eram os tempos de minha divina inocência. Perdi boa parte de lembranças que deveriam ser inesquecíveis em algum canto das prateleiras cheias de histórias na minha memória. Porém, no dia dezoito de maio essas lembranças me visitam.
Poderia ser o dia dezoito de maio de 2006, 2009, ou 2010 que não há diferença: na data do meu aniversário eu sempre voltarei a sentir o gostinho inigualável de ser criança novamente.
Neste ano, no meu aniversário, acordei com quilos de cobertores em cima do meu corpo e um beijo da minha mãe bem estalado na bochecha. Confessem, existe despertador mais adorável? O meu foi (e é) excepcional, ainda mais me dando energias para sair de calor gostoso da minha cama. Sorri feito uma parva novamente para o presente mais complicado e mais divino que eu poderia receber de meus pais: meu notebook. Ele se encontrava em cima da escrivaninha sussurrando sinopses de futuros filmes e séries que me esperavam para serem assistidos, novos amigos a serem descobertos, músicas a serem apreciadas.
Não havia planejado nenhuma festa estrondosa, afinal, como diz uma certa garota: “Qual é a diferença em fazer ou não festa de debutante quando se completa quinze anos? As outras idades você também não tem duas vezes.” Portanto farei uma festa “arrasa corações” quando eu quiser, ou viajarei quando quiser, mas isso não me é importante agora. Nem milhões de festas poderiam me fazer acordar com os olhos brilhando, o corpo formigando de felicidade.
Na escola houve um abraço grupal na frente de todos os alunos se arrastando de sono. Retribuí os sorrisos sinceros o mais agradavelmente que pude, sem medo de parecer ridícula aos olhos de quem tem a mente pequena demais para poder enxergar além das minhas vestimentas – ou do que estava por baixo delas. Minha professora de português incrivelmente descobriu que eu fazia anos, então me dedurou na frente... da sala inteira. Pois é, Marcela tendo seu dois minutos de fama.
Houve um “Parabéns a você” desengonçado porque todos estavam ocupados demais me desejando todas as coisas que se espera que aconteça com o aniversariante e por isso mesmo belas demais para serem ditas todos os dias. Não ganhei presentes deles, mas quem se importa? É sério, só me lembro da minha data especial porque os amigos e parentes não se esquecem por mim. E, sinceramente, para quê artifícios materiais quando tenho ao menos um momento sem brigas, cheio de pessoas demonstrando que gostavam pelo menos um pouquinho da minha presença?
Preciso me lembrar de agradecer a minha professora de português.
Na rua distribuí sorrisos e acenos para estranhos, pulei rachaduras como fazia antigamente, ri por nada, cantei pateticamente e dancei com a minha mochila escolar enquanto uma música dos Beach Boys tocava na minha mente. Em casa fui paparicada e recebi muitos telefonemas adoráveis de pessoas que eu jamais pensaria que se dariam ao trabalho de pegar o telefone para me desejar feliz aniversário. Dentre elas constam a minha antiga faxineira e uma amiga bem-humorada da minha mãe. No twitter e no Orkut, então, acho que a minha surpresa foi maior ainda. Meus amores, vocês são lindos por terem me mandado tantos recados e tweets maravilhosos. Sou eternamente grata e podem ter certeza que arrancaram muitos sorrisos! Ganhei presentes fofos e internéticos, e aqui há os de duas pessoas favoritas no meu coração:

Letíca, amo tulipas! Amo flores! Adorei o agrado, viu? Aliás, gente, essa diva tem um blog que merece ser lido e relido, aqui está: www.likealovegood.blogspot.com
Guilherme, mesmo que o bolo seja fictício, saboreei-o na minha mente. Ele tinha um gosto delicioso de chocolate e glacê, com um toque de canela. Ou seriam todos os sabores do mundo? Estou em dúvida.
Posso dizer que completei quinze anos com cabeça de quarenta, corpinho de dezoito e apreciação pelos anos cinquenta em diante. E ainda por cima tenho meu dia de criança uma vez por ano, sem medo algum de estar crescendo mais uma vez ou de exagerar no bolo, e sim abraçar com força toda a nostalgia que me visita anualmente.
Para encerrar o meu falatório, queria deixar para vocês um fragmento de A Sombra do Vento, uma história ótima e encantadora que estou me dando ao trabalho de reler porque, além de entreter, tem a essência da beleza dos livros.
{“Certa ocasião ouvi um cliente habitual da livraria de meu pai comentar que poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre o seu coração. As primeiras imagens, o eco dessas palavras que pensamos ter deixado para trás, nos acompanham por toda a vida e esculpem um palácio em nossa memória ao qual mais cedo ou mais tarde – não importa o livro que leiamos, os mundos que descubramos, o quanto aprendamos ou o quanto esqueçamos – iremos retornar.”}
Um beijo no coração, Marcela.