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25 de novembro de 2012

entre fadas mortas e outras coisas


" - E toda vez que uma criança diz,
  'Eu não acredito em fadas', 
em algum lugar uma fada cai morta."


-


Faz um ano e meio.


Mas no meu tempo particular, parece faz um pouco mais de cinco séculos que não posto nada por aqui. Talvez seis, vai. É tanto tempo em retiro que meus dedos criaram raízes e a ferrugem se apossou das engrenagens do meu cérebro. Mas talvez haja alguma centelha que ainda me salve de ser um caso perdido.

E neste blog empoeirado conto-lhes um episódio de minha vida, que aconteceu precisamente nesta sexta-feira. Uns parênteses compartilhados ao pé do ouvido dos poucos leitores que ainda me restam na plateia, na verdade. Podem parar de dormir: obrigada por estarem aqui, muito obrigada mesmo. 
Perdoem o textinho modesto. Essa meia história inventada. Aqui só tem magia montada.

E uma menina.


Ela era da geração da ansiedade, do salgadinho empacotado, e dos smartphones. Tinha só quatro anos, mas possuía uma cabecinha que se você explicasse toda a física quântica ela com certeza entenderia – afinal, já sabia mexer em celulares, nada era impossível. Mas ninguém explicou-lhe a tal física de Einstein, pelo mesmo motivo de que ela tinha quatro anos. 
Ainda bem.

Isabela entrou no meu mundo durante um encontro entre eu e meus amigos. Tinha gostado de tanta gente lhe dando atenção – quem não gostaria? - que convenceu sua mãe a ficar mais um tempo até irmos embora para casa. Porém, precisou uma hora aquietar-se ao meu lado, as mãos amuadas porque tomaram bronca por não pararem quietas. 

"Isabela não corra pela casa. Isabela deixe as meninas em paz. Isabela, não faça cócegas na Marcela porque senão ela vai embora.”


Isabela Isabela Isabela - não seja criança.

Acatando a ordem e deixando a infância de lado, logo começou a me falar dos beija-flores de seu jardim: disse toda orgulhosa que sabia preparar a água com açúcar sozinha para eles. Eu, metida, disse que na minha casa iam fadas.

- Mas fadas?! - falou estupefata. Me diverti vendo sua boca virar um ó.
- Os beija-flores não gostam delas, mas fazer o quê. Só porque bebem toda a água deles.

- E você fala com elas?

- Aham. Só pessoas muito boas entendem o que elas dizem – oh, senti o estômago pesar com a propaganda enganosa. - Se você for muito legal, você também pode entender a língua das fadas. – ok, aliviou um pouquinho.

Por um momento Isabela ficou olhando pra mim. Achei que seus olhos me devorariam.

- Fala pra elas que minha casa fica (na rua tal), no número... 181. É, 181, não esquece. Tá? No Morumbi. 

- Não me esqueço.

Como podem perceber, só não me esqueci mesmo do bendito número 181. Isso porque era o meu número da sorte + 1, o qual não sei se tem algo a ver com esta história. Não tem. Me preocupo. Fadas têm bom senso de direção?

- E fala pra ela me trazer uma Barbie.

Tudo bem né, uma Barbie. As variações fadísticas que eu criei também podem ser Papai Noel. Na hora de ir embora Isabela perguntou se eu partiria com ela. Falei que sim e lá foi a menina me seguindo no carro. "Elas gostam de verde", mas por que verde?, "porque ficam nas plantas, nos bosques e tal... antes ficavam só nas flores, então você pode achar fadas rosas também." Pronto, toda ela brilhou, literalmente. A sandália da Isa era de luzinhas. "Quando forem na sua casa mostre essa sandália ai que você está usando, elas vão gostar..."

Fui acusada de iludir a menina. E ao mesmo tempo os acusadores também se deliciavam com o que ouviam. Tinham suas próprias fadas-do-dente, fadas mordentes, disneyficadas. Todas soterradas pela razão, mas sempre ficando uma asa resistente ou um pé para fora. Há quem pegue mais pesado e siga o exemplo das Fadas de Cottingley, porém estes são os que mais se divertem. Mas não, esse acontecimento não tem nenhuma moral-da-historia. Na verdade a minha intenção era só salvar uma pobre fada de morrer nesse perigoso mundo tecnológico. Ou uma criança do ceticismo, onde nos obrigam a matar nossos sonhos cada vez mais cedo. Ou só sou babaca mesmo e deveria estar dormindo porque amanhã tem Fuvest.

(Espero que as luzinhas da sandália de Isabela deem pra enxergar de longe.)