
" - E toda vez que uma criança diz,
'Eu não acredito em fadas',
em algum lugar uma fada cai morta."
-
Faz um ano e meio.
Mas no meu tempo particular, parece faz um pouco mais de cinco
séculos que não posto nada por aqui. Talvez seis, vai. É tanto tempo em retiro
que meus dedos criaram raízes e a ferrugem se apossou das engrenagens do meu
cérebro. Mas talvez haja alguma centelha que ainda me salve de ser um caso
perdido.
E neste blog empoeirado conto-lhes um episódio de minha vida, que
aconteceu precisamente nesta sexta-feira. Uns parênteses compartilhados ao pé
do ouvido dos poucos leitores que ainda me restam na plateia, na verdade. Podem
parar de dormir: obrigada por estarem aqui, muito
obrigada mesmo.
Perdoem o textinho modesto. Essa meia história inventada. Aqui só
tem magia montada.
E uma menina.
Ela era da geração da ansiedade, do salgadinho empacotado, e dos
smartphones. Tinha só quatro anos, mas possuía uma cabecinha que se você
explicasse toda a física quântica ela com certeza entenderia – afinal, já sabia
mexer em celulares, nada era impossível. Mas ninguém explicou-lhe a tal física
de Einstein, pelo mesmo motivo de que ela tinha quatro anos.
Ainda bem.
Isabela entrou no meu mundo durante um encontro entre eu e meus
amigos. Tinha gostado de tanta gente lhe dando atenção – quem não gostaria?
- que convenceu sua mãe a ficar mais um tempo até irmos embora para
casa. Porém, precisou uma hora aquietar-se ao meu lado, as mãos amuadas
porque tomaram bronca por não pararem quietas.
"Isabela não
corra pela casa. Isabela deixe as meninas em paz. Isabela, não faça cócegas na
Marcela porque senão ela vai embora.”
Isabela Isabela Isabela - não seja criança.
Acatando a ordem e deixando a infância de lado, logo começou a me
falar dos beija-flores de seu jardim: disse toda orgulhosa que sabia preparar a
água com açúcar sozinha para eles. Eu, metida, disse que na minha casa iam
fadas.
- Mas fadas?! - falou estupefata. Me diverti vendo sua boca
virar um ó.
- Os beija-flores não gostam delas, mas fazer o quê. Só porque
bebem toda a água deles.
- E você fala com elas?
- Aham. Só pessoas muito boas entendem o que elas dizem – oh,
senti o estômago pesar com a propaganda enganosa. - Se você for muito legal,
você também pode entender a língua das fadas. – ok, aliviou um pouquinho.
Por um momento Isabela ficou olhando pra mim. Achei que seus olhos
me devorariam.
- Fala pra elas que minha casa fica (na rua tal), no número...
181. É, 181, não esquece. Tá? No Morumbi.
- Não me esqueço.
Como podem perceber, só não me esqueci mesmo do bendito número
181. Isso porque era o meu número da sorte + 1, o qual não sei se tem algo a
ver com esta história. Não tem. Me preocupo. Fadas têm bom senso de direção?
- E fala pra ela me trazer uma Barbie.
Tudo bem né, uma Barbie. As variações fadísticas que eu criei também podem
ser Papai Noel. Na hora de ir embora Isabela perguntou se eu partiria com ela.
Falei que sim e lá foi a menina me seguindo no carro. "Elas gostam de
verde", mas por que verde?, "porque ficam nas plantas, nos bosques e
tal... antes ficavam só nas flores, então você pode achar fadas rosas
também." Pronto, toda ela brilhou, literalmente. A sandália da Isa era de
luzinhas. "Quando forem na sua casa mostre essa sandália ai que você está
usando, elas vão gostar..."
Fui acusada de iludir a menina. E ao mesmo tempo os acusadores também se deliciavam com o que ouviam. Tinham suas próprias fadas-do-dente, fadas mordentes, disneyficadas. Todas soterradas pela razão, mas sempre ficando uma asa resistente ou um pé para fora. Há quem pegue mais pesado e siga o exemplo das Fadas de Cottingley, porém estes são os que mais se divertem. Mas não, esse acontecimento não tem nenhuma moral-da-historia. Na verdade a minha intenção era só salvar uma pobre fada de
morrer nesse perigoso mundo tecnológico. Ou uma criança do ceticismo, onde nos obrigam a matar nossos sonhos cada vez mais cedo. Ou só sou babaca mesmo e deveria estar dormindo porque amanhã tem Fuvest.
(Espero que as luzinhas da sandália de Isabela deem pra enxergar de longe.)
Bom, antes de falar alguma coisa sobre este lindo conto, vou tirar o peso da minha garganta - aramham...
ResponderExcluirQue texto lindo e deu para tirar a saudade de Mar e das suas histórias.
Espero que continue escrevendo e me avisa sempre que postar. Beijos.
Textinho modesto e encantador, você quer dizer.
ResponderExcluirTão raro! No meio de toda essa nossa correria, onde crianças são pequenos adultos e adultos são velhos precoces, que mal faz pôr uma fadinha na imaginação de alguém? Seu texto pôs algumas fadinhas a rondar minha cabeça já meio doida.
Beijo, moça.
De qualquer forma, Mar, queria muito que voltasse a escrever. Dificilmente encontro em blogs pessoas que escrevam tão bem. Então por favor, volte.
ResponderExcluirE agora, li o texto, desculpa por ir fazendo um pedido sem cabimento. O triste é que com o passar dos anos o número de fadas mortas aumentam e elas levam embora um pedacinho da infância que ainda resta.
ResponderExcluirPrimeiro eu tenho que pedir desculpas, não é? Tu está sempre tão presente no meu blog. E olhe só, depois de muito tempo que venho dar o ar da graça por aqui. Aliás, queria dizer que é um ótimo texto, assim como todos que tu já escreveu.
ResponderExcluirEstá mais simples, mais curto... E mais bonito. Da pra ver a realidade e o teu desejo de voltar a escrever, um pouquinho que seja. É terrível que com o tempo e a tecnologia, essas fadas se percam por aí...
Ah! Estou com saudades das nossas conversas. Precisamos marcar qualquer dia desses, quero saber como tu está.
Um beijo e um abraço beeem apertado!